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Saúde Bucal
Odontologia e Oncologia

Os pacientes oncológicos e oncoematológicos geralmente apresentam manifestações orais em conseqüência da intensa imunossupressão obtida através de químio e/ou radioterapia. Essas manifestações orais podem ser graves e interferir nos resultados da terapêutica médica, levando a complicações sistêmicas importantes, podendo aumentar o tempo de internação hospitalar, os custos do tratamento e afetar diretamente a qualidade de vida destes pacientes.

Os fatores que afetam a freqüência do desenvolvimento de problemas bucais estão relacionados com o paciente e com a terapia. Os fatores que se relacionam ao paciente são a idade, o diagnóstico e a condição bucal do paciente antes e durante a terapêutica. E os fatores relacionados com a terapia são o tipo de droga quimioterápica, a dose e a freqüência do tratamento.

No que se refere ao paciente, quanto mais jovem maior parece ser a possibilidade de a quimioterapia afetar a boca. Os efeitos colaterais bucais em crianças abaixo dos 12 anos de idade aumentam em mais que o dobro que nos pacientes adultos. Parece provável que o índice mitótico elevado das células da mucosa bucal, neste grupo etário, seja um fator adjuvante.

Os pacientes com higiene bucal inadequada, em presença de infecções de origem odontogênica e/ou periodontal prévias à quimioterapia correm grande risco de desenvolver uma infecção bucal, a qual pode ser disseminada por via hematogênica e comprometer outros órgãos, durante os períodos de mielossupressão induzida pela quimioterapia.Com relação à terapia, sabe-se que nem todos os agentes quimioterápicos são igualmente estomatotóxicos ou causam os mesmos efeitos nos tecidos bucais. Medicações como metotrexato, ciclofosfamida e 5-fluorouracil são as mais envolvidas com o surgimento da mucosite oral.

Os efeitos colaterais bucais estão relacionados com a dose da droga administrada e o seu intervalo de tempo, que talvez seja o mais importante. O tratamento quimioterápico associado à radioterapia tende a potencializar estes efeitos colaterais

As complicações bucais mais freqüentemente encontradas nos pacientes submetidos ao tratamento quimioterápico são mucosite oral, xerostomia, neurotoxicidade, estomatotoxicidade indireta (infecções oportunistas e sangramento bucal).

A mucosite oral se caracteriza como uma reação tóxica inflamatória por exposição a agentes quimioterápicos ou radiação ionizante. Esta toxicidade age diminuindo ou inibindo a divisão celular das células epiteliais da camada basal da boca. Geralmente estas células apresentam um alto “turnover”, o que garante a reposição do epitélio que se descama em função do atrito presente na boca. Não havendo reposição dessa população celular, ocorre a exposição do tecido conjuntivo subjacente. Clinicamente, a mucosite oral se caracteriza por eritema e edema, sensação de queimação, um aumento da sensibilidade a alimentos quentes e condimentados, áreas eritematosas podem desenvolver placas brancas elevadas descamativas e subseqüentes úlceras dolorosas que podem desencadear infecções secundárias, além de impossibilitar a nutrição e a ingesta de fluidos, resultando em má nutrição e desidratação, o que vai interferir na regeneração da mucosa. A mucosa não queratinizada do palato mole, bochechas e lábios, a superfície ventral da língua, e o assoalho da boca são as áreas mais vulneráveis à estomatotoxicidade direta, enquanto a gengiva, dorso da língua ou palato duro são mais raramente afetados, provavelmente devido à sua menor renovação celular.(4) As lesões orais costumam desaparecer sem cicatriz, a não ser que a mucosite seja complicada por infecção importante ou xerostomia. Esses sintomas levam à necessidade do uso de antibióticos, aumento do período de internação hospitalar, aumento do risco de bacteremia, podendo aumentar a morbidade e mortalidade.(5,6) As medidas terapêuticas da mucosite oral incluem uso de soluções isotônicas, antiinflamatórios e antimicrobianos tópicos, e mais recentemente o uso de laserterapia e a administração de Fator de Crescimento de Queratinócitos, os quais têm demonstrado maior efetividade.(1)

A xerostomia ocorre porque os pacientes apresentam concentrações destes agentes quimioterápicos na saliva, o que resulta em exposição da mucosa oral à toxicidade. As principais alterações são: redução no volume salivar, mudança dos constituintes da saliva com conseqüente alteração da microflora oral e redução do nível de imunoglobulinas salivares.(7) Pouco pode ser feito para prevenir a xerostomia induzida pela quimioterapia. Mas pode-se lançar mão de recursos como os produtos substitutos artificiais da saliva(2), os quais proporcionam importante conforto aos pacientes.

A neurotoxicidade decorre do uso de alcalóides vegetais envolvendo os nervos bucais, causando dor odontogênica, que pode ser aguda localizada ou generalizada, sem sinais clínicos de cárie, doenças periodontais ou outras infecções bucais, chegando a desencadear necrose pulpar, podendo evoluir para um quadro de abscesso dentoalveolar. O tratamento é sintomático, e a solução se dá após a suspensão da medicação.(2) Nos casos de abscesso, a atuação rápida na remoção do foco de infecção pelo cirurgião-dentista é de fundamental importância, com o fim de evitar uma repercussão sistêmica desta infecção local.

Os principais problemas associados a estomatotoxicidade direta são os quadros de infecção e a hemorragia. Algumas condições orais podem ser consideradas de risco para complicações infecciosas nos pacientes transplantados, como: cálculos salivares, , raízes residuais, abscessos periapicais crônicos, dentes cariados, restaurações infiltradas, doença periodontal, aparelhos protéticos; colonização bacteriana e fúngica de cálculos dentais, placa bacteriana, polpa dental, restos radiculares, bolsas periodontais, lesões em periápice e próteses removíveis, constituem um reservatório de organismos patogênicos e oportunistas que podem desencadear infecções durante episódios de imunossupressão ou neutropenia(9). As infecções bacterianas de boca podem envolver os dentes, a gengiva ou a mucosa, e muitas vezes os sinais clínicos de infecção estão ausentes devido à falta de uma resposta inflamatória normal. Ruescher et al. (1998) concluíram que as lesões infectadas em mucosa oral podem ser significativas para o desenvolvimento de quadros sépticos, podendo levar o paciente a óbito. Portanto, é de grande importância a integração da Odontologia na equipe de Oncologia, participando em novos métodos de diagnóstico, tratamento e outros estudos prospectivos necessários para a melhoria das condições bucais e sistêmicas destes pacientes.

As principais infecções fúngicas em um indivíduo leucopênico por mielossupressão são causadas pela Candida albicans. Estas infecções podem se proliferar em excesso, invadindo os tecidos locais, estendendo-se ao esôfago e pulmões, chegando a produzir sepse generalizada pela disseminação hematogênica.(2) Nos estados de neutropenia é mais recomendada a terapêutica sistêmica antifúngica para que se obtenha maior eficiência no combate a esta infecção.

Fonte: Dr. Paulo Sérgio da Silva Santos1- Karin Sá Fernandes

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